quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Eu vou tomar partido seu
Juntando os meus cacos
Para a partida do plano volátil
Na estação de trem partir é o que me resta

Corpos narrativos
Partir
Em teu partido
Foi a partida que me restou

David Cejkinski

terça-feira, 27 de outubro de 2009


Sim, sobre o amor talvez
Sobre recomeço
Novas eras
Outras pontes
Sim, sobre paixão talvez
Novos olhares
Plenitude
Sim, sobre olhos doces
Bichos de pé
Rosas, mares de algodão-doce
Em meu intestino salgado
Sim, sobre outros atlânticos
Outros parques
Rodas, moinhos, seios
Sim, sobre mães zelosas
Sobre tortas de maçã
Sobre mel e azeite
Sim para os domingos-bares
Malas leves
Rodoviárias-feriados
Sobre meus naufrágios
Com salva-vidas no fim do reinado
Sim para mantras doces
Para poemas plenos
Menos herméticos
Para contar paisagens
Para saldar sorrisos
Completude
Para juventude
Aquele momento de ciúmes antes do beijo
Para matar desejo
Para comer pipoca
Para levar bronca da velha coroca
Para aquela chuva turva no meio do campo
Para espantar o espanto
Cozinhar o medo
Com chocolate mergulhado na pimenta
Para mover os ombros, as pernas, o tronco
Se jogar na estrada
Alice desengonçada
E enroscar-desejos
Para os sertanejos
Fantásticas estrelas no céu limpo
Estampado no azul-celeste do nosso destino
Para matar trabalho
Na montanha-russa
Reduzir os templos
Falar menos fiapos
Mover de si todos os nervos
Massacrar neuroses
Entender-se inteiro
Para ser cabreiro
Em lama de gincana
Doer menos segundas-feiras
Tocar e sair correndo
Bater punheta
Lavar-se inteiro
Sacudir o braço da vó
Beijar-se no espelho
Amanhecer dançando
No meio da semana
Fazer cócegas-queridas-em-gente-fofinha
Menos teimosia
Vendo cinema
Com companhia plena de fazer perder o ar
Ser meio-metido-a-besta
Rezar baixinho
Pedir pra Deus fazer de ti o melhor caminho
Para cortar revistas
Dever-muito-chato-de-casa
Apostar corrida na Avenida Paulista
E pedir com muito carinho:
Mãe vamos embora!
Contrabandear adultos para o Paraguai
Comer nentilha numa cantina
Ver o Peter Pan na praia
Jogar confete na bolsa de valores
Musicar fagulha no Teatro Municipal
Imitando tenores!
Mascaras, bonecos, fases e pessoas desfilarão
Quando disser sim ao ultimo tango
Bailar aquela canção...

David Cejkinski

sexta-feira, 23 de outubro de 2009


Bares, brisas, falsas ondas
Outras náuseas
Casas, labirintos
Falsos passos
Outras aventuras
Eu já não ligo
Sou um interurbano
Lilás, no fundo de tarde da paisagem-pia
Reflexo de meus pés naquela bacia
Em outras moradas
Vestindo roupa de toureiro em balada
Eu já não vou mais
Já não estou mais
Já não espero mais
Eu estou seco
Sempre alem, parte de mim
Que se esvai
Em qualquer conversa maldita na beira do mar
Que sussurra:
Um dia sua profecia vai recomeçar
Absoluto
Concretamente surdo e mudo
Jogando comigo de terno e gravata
Over the rainbow
Encontrarei um sax-sofrido
Sexuando um gemido blues
Desesperado
No rosto: um meio sorriso-cortado

David Cejkinski

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Francis Bacon
Vou lhe dizer
Sou a maquina de guerra
Automóvel destruidor em rotativa espera
Vou lhe dizer a pátria se desespera
Com arranjos floridos de náusea
Caminhando, tremulas bandeiras assassinam os olhos
Por esses tempos
Hoje sou fabrica
Amanha sou morte
E depois quem sabe?
Sou um mártir
Repleto de medalhas e sorte
Depois da morte
Mirar uma ilha paradisíaca e se perder ali
Com meu corpo, minha industria
Procurar uma obra de Salvador Dali
E se eternizar
Como produto
Pego ônibus, lojas, bares, sou sempre tão absoluto
Que deslizo
Maremoto
Ando meio que de luto

David Cejkinski

terça-feira, 8 de setembro de 2009

NO AEROPORTO

As portas já estão abertas
As janelas rasgadas
Em pronta entrega
A mesa já não mais posta
Sem sobremesas
As aulas não vão começar
Relógios não despertaram
Para o ano novo que começa daqui a pouco
As palavras estão caídas
As promessas desfeitas
Os romances arruinados
Quando uma oração trafega em sua alma?

Os padres já pecam
E as putas perdoam
As promessas não findam
E os becos escondem vitrines
Os trajes serão largados
As profecias serão pagãs
Do outro lado da rua
O ano que começa daqui a pouco
Outras partituras e sonetos
Em outros dedos
Vão reger seu horóscopo-astral

Se vista de preto
Ande fumando no aeroporto
Coloque todas suas fichas no esgoto
Para onde voltarão?
Transeuntes, baluartes, internacional
No ano novo que decola de sua porta
Labirintos se trancaram
Lá no fundo esperançoso
De seu coração

David Cejkinski

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Ficou difícil, ensaiar sem semi tom
Desfazer meus riscos
Pele
Precipício
Juramentar voz de veludo
Cabaré mineiro
Descansando em pranto planalto
Ficou difícil desafinar em luz-neon
Jantar restaurantes lambuzados
De meu suor, plantas, poemas, livros usados
Para se deixar
Em meia linha, em meia vida, em meio céu
Cantar outro rumo-verso-moeda
Mostrar cartas fabricadas com um usado Neruda
E atravancar
Outros caminhos
Desobedecer à palavra lei de antes
Com outras roupas
Telefones ousadamente ocupados
Em sua casa de mexerica
Sem terraço
Para expandir-te
Para exprimir-te
Outra vez poesia

David Cejkinski

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

FOR SALE

Eu me diluo
Paz tremida
Redondezas
Exposto em vitrines
Galerias
Paixão
For sale

Pictóricas náuseas
Juventude
Aquele grito parado no peito
Eu troco minhas pernas, meus bueiros, eu me diluo
Em parapeito
Cítrico e sem bagaço
Perdido no céu de diamante
For sale

Grito
Porem me sinto outro
Aguardando a hora de entrar em cena
Eu me dissolvo antes do fim
Eu pulo do trampolim
Para a cidade
For sale

Aguardo a espera de um trem
Que me leve para longe
Onde eu possa me sentir
Apreender a chorar
Repetir, morrer quem sabe...
E em outra capital vou me habitar
For sale

Ser um punk underground
Investir cocaína na pasta de trabalho
Eu-meu-personagem-tassiturno
Noturno, trocando néons
Rasgarei aquele horizonte blue
For sale

Se continuo a andar
É com certo pranto nas minhas pernas
Se continuo a respirar
Vou falar em outra língua
Se o bem e o mal moram em mim
Eu me justifico
For sale

David Cejkinski